Fonte: Site oficial
Luteranismo
O movimento da Reforma, desencadeado no século 16, que teve Martim Lutero como um dos principais protagonistas, encontrou uma grande receptividade na Alemanha e em outros países europeus. Por causa da liderança de Lutero e também pelo fato de a sua pessoa ser o centro das tensões e dos conflitos com a Igreja Católica, as pessoas simpáticas e seguidoras do movimento começaram a ser chamadas de “luteranas”. Tratava-se no início de um xingamento de adversários e opositores.
Martim Lutero opôs-se veementemente a esta designação. “Peço que meu nome seja calado e que ninguém se chame luterano, senão cristão. Que é Lutero? Pois se a doutrina não é minha! Eu também não fui crucificado por ninguém.” Fala de si mesmo como um “pobre e fedorento saco de vermes.” A sua preocupação central girava em torno do resgate da verdade evangélica.
Como formação eclesiástica independente o luteranismo tem sua origem por ocasião da aprovação da Confissão de Augsburgo em 1530. Esta confissão tornou-se um documento básico de todas as igrejas luteranas no mundo. Recebeu a adesão de fiéis em boa parte da Europa. Sofreu sérios revéses com as investidas da Contra-Reforma católica, mas acabou se consolidando principalmente na Alemanha, Suécia e demais países escandinavos.
O luteranismo expandiu-se para as Américas e a Oceania com o advento do processo emigratório europeu. A expansão colonial européia fez com que chegasse à África e Ásia. Atualmente ele se agrupa basicamente em duas grandes organizações mundiais: Federação Luterana Mundial e Conselho Luterano Internacional.
A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil é filiada à Federação Luterana Mundial desde 1950.
Presença no Brasil
A tradição evangélica luterana chegou ao Brasil em meio a inúmeras contradições. O Evangelho sempre se mistura à poeira da história humana. É um tesouro guardado em vasos de barro. As situações históricas, as influências políticas e ideológicas, as circunstâncias sócio-econômicas interagem com a mensagem. Esses dados da realidade não podem ser ignorados. De um lado, cabe uma confissão de pecados pública e, de outro lado, com muita sobriedade, pode-se dar graças a Deus. Apesar dos caminhos tortuosos e dos desvios ocorridos ao longo de muitas décadas, o povo luterano e suas comunidades estão juntos no caminho.
Período Pré-Sinodal
Ao longo da história brasileira sempre houve a presença de pessoas que tinham vinculação com a fé evangélica. Entre os primeiros evangélico-luteranos destacam-se: Heliodor Hesse – escrivão que residiu em São Vicente-SP, filho do humanista alemão Helius Eobano Hesse, amigo de Martim Lutero que chegou ao Brasil por volta de 1554 e Hans Staden que cantou hinos de Lutero e erigiu a primeira capela evangélica enquanto estava prisioneiro dos índios em Ubatuba/SP em 1554. Lembre-se também que no Rio de Janeiro foram executados os três primeiros mártires evangélicos brasileiros (calvinistas) em 1558 e em Sorocaba/SP foi criado o primeiro cemitério protestante por ocasião da implantação da primeira siderúrgica brasileira por parte da família real em 1809.
A organização comunitária deu-se apenas com o advento do Império. Havia, porém, grandes restrições. O parágrafo quinto da Constituição do Império dizia: "A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Estado. Todas as demais religiões serão toleradas, em casas para tanto destinadas, sem qualquer forma exterior de templo." Isso queria dizer que não eram permitidos torre, cruz, sino, enfim, nada que lembrasse igreja.
As dificuldades também se refletiam na vida civil e familiar. Os matrimônios dos evangélicos não tinham validade. O registro civil inexistia. Os protestantes viviam em concubinato, pois o casamento para ser válido teria de acontecer diante do padre. Até os batismos chegaram a não ser reconhecidos. Os evangélicos, pessoas de segunda categoria, eram apenas tolerados. Tiveram dificuldades com o sepultamento de seus mortos e estavam impedidos de participar da vida política.
Dentro deste cenário surgiram e se desenvolveram as primeiras comunidades. Em 3 de maio de 1824 um grupo de imigrantes alemães evangélicos chegou a Nova Friburgo/RJ e um outro aportou em São Leopoldo/RS, em 25 de julho do mesmo ano. As duas comunidades tiveram a assistência de pastores contratados pelo governo brasileiro. Isso foi caso único, pois com a expansão e crescimento de novas comunidades isso não mais se repetiu.
O desenvolvimento da igreja evangélica acontece conjugado ao assentamento de novos contingentes de imigrantes. Estes foram assentados principalmente nas três províncias do sul do Brasil: Rio Grande, Santa Catarina e Paraná. Mas houve também grupos menores que foram estabelecidos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e no Espírito Santo. No Rio de Janeiro, a capital do império, a comunidade evangélica foi fundada em 1827. Em Santa Catarina, as primeiras comunidades surgiram em Blumenau (1850) e em Dona Francisca (Joinville) (1851).
Nos primeiros quarenta anos as comunidades evangélicas, que mais tarde viriam a formar a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, estavam bastante abandonadas. Organizavam suas comunidades sem muitas formalidades. De simples cultos domésticos evoluíram depois para comunidades, elaborando seus estatutos e elegendo as diretorias. Nas comunidades conviviam inicialmente luteranos, reformados e unidos.
Não podendo construir locais de culto com aspecto de igreja, as comunidades construíram escolas, usando-as também como capelas para os cultos. A falta de pastores fez com que as comunidades escolhessem entre os seus membros pessoas com melhor formação para exercer o magistério e o ministério pastoral. Tinham neste aspecto uma profunda vinculação ao sacerdócio geral de todas as pessoas batizadas.
Esse processo perdura até 1864 quando começa, de forma mais regular, a chegada de pastores da Alemanha. Eles são enviados pela Igreja Evangélica da Prússia, pela Sociedade Missionária de Basiléia(Suíça) e pela Sociedade Evangélica para os Alemães Protestantes na América, de Barmen(Alemanha). Até o final do século 19 há inúmeras comunidades espalhadas nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. Constata-se a necessidade de uma maior articulação entre as comunidades. Esta organização regionalizada recebeu o nome de Sínodo.
Formação dos Sínodos
A primeira organização de caráter supracomunitário, denominada Sínodo, que significa “juntos no caminho”, aconteceu em 1868 sob a iniciativa do Pastor Dr. Hermann Borchard. O Sínodo Evangélico Alemão da Província do Rio Grande do Sul durou até 1875 quando foi dissolvido. A estrutura não deu certo porque representava basicamente uma igreja de pastores, contradizendo a experiência que as comunidades haviam tido durante os primeiros quarenta anos.
Em 20 de maio de 1886, em São Leopoldo/RS, sob a presidência do Pastor Dr. Wilhelm Rotermund, foi fundado o Sínodo Rio-Grandense pelas comunidades de São Leopoldo/Lomba Grande, São Sebastião do Caí, Santa Cruz do Sul, Mundo Novo (Igrejinha), Santa Maria (da Boca do Monte), Baumschneids (Dois Irmãos) e Teutônia. Ele é fruto de uma intensa atividade anterior na qual o referido pastor desempenhou um papel importante, a saber, a produção de literatura, jornais e almanaques para fortalecer a identidade evangélica dos membros das comunidades.
Já no dia 9 de outubro de 1905, na Estrada da Ilha, região de Joinville/SC, sob a presidência do Pastor Otto Kuhr foi criado o Sínodo Evangélico Luterano de Santa Catarina, Paraná e outros Estados da América do Sul, por 5 comunidades e 11 pastores. Tratava-se de uma iniciativa dos pastores enviados pela Associação Luterana Caixa de Deus (Lutherischer Gotteskasten) da Alemanha. Este sínodo teve desde o seu começo uma identidade confessional luterana bastante definida.
Alguns anos mais tarde foi fundada em 6 de agosto de 1911, em Blumenau (Santa Catarina), sob a presidência do Pastor Walther Mummelthey, a Associação de Comunidades Evangélicas (mais tarde denominada Sínodo Evangélico de Santa Catarina). Participaram inicialmente 10 comunidades.
Também em 28 de junho de 1912, no Rio de Janeiro, sob a presidência do Pastor Ludwig Hoepffner, criou-se o Sínodo Evangélico do Brasil Central. De sua fundação tomaram parte 10 comunidades situadas nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.
Em 1904, como fruto do envio de pastores dos Estados Unidos, surgiu o Distrito Eclesiástico do Sínodo Missouri que hoje forma a Igreja Evangélica do Brasil.
A função dos sínodos foi a de coordenar a caminhada comum das comunidades e estabelecer trabalhos conjuntos. Neste sentido foram importantes as atividades dos pastores itinerantes que percorriam regiões em que havia a presença de evangélicos sem atendimento regular. Some-se a isso a atuação na área diaconal (asilos, orfanatos, maternidades e hospitais) e educacional (formação de professores e produção de material didático). Surge o trabalho voltado para as mulheres (Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélica – OASE) e também para a juventude (Juventude Evangélica -JE).
O Sínodos abrangiam comunidades da Bahia ao Rio Grande do Sul e cada um tinha características confessionais próprias. Tinham em comum o acompanhamento e assistência espiritual dos evangélicos luteranos na sua maioria imigrantes e/ou seus descendentes em seu processo migratório interno no Brasil. As duas grandes Guerras Mundiais afetaram e dificultaram muito o trabalho das comunidades e dos sínodos. Neste período que vai até a II Guerra Mundial a maior parte do trabalho pastoral era desenvolvido em língua alemã.
Os Sínodos procuraram ser porta-vozes dos interesses das comunidades frente às autoridades brasileiras. A II Guerra Mundial e os seus desdobramentos serão decisivos para uma articulação mais estreita entre os sínodos com vistas a uma integração nacional.
Federação Sinodal
Os Sínodos tinham uma autonomia jurídico-administrativa. Funcionavam como uma Igreja. As enormes dificuldades enfrentadas durante a II Guerra Mundial (prisão de pastores, proibição da realização de cultos em língua alemã, apreensão e confisco de hinários e Bíblias, etc.) fizeram com que houvesse gestões para a implementação de uma instituição de formação teológica no Brasil. Até o período da guerra os pastores vinham da Alemanha ou estudantes brasileiros se dirigiam a este país para o estudo de teologia.
Assim, surgiu em 1946 a Faculdade de Teologia em São Leopoldo/RS. Trata-se de um empreendimento comum de todos os sínodos. As conversações necessárias para atingir o objetivo contribuíram para aproximar as lideranças sinodais ao ponto de constituírem no dia 26 de outubro de 1949 a Federação Sinodal. A questão de fundo dizia respeito à necessidade de uma ruptura por parte das comunidades com a “teologia da etnicidade” (vínculo estreito entre igreja e germanidade). Tornara-se urgente a formulação clara de uma confissão de fé.
O artigo II da Ordem Básica da Federação Sinodal dizia o seguinte: “Constitui fundamento da Federação Sinodal o Evangelho de Jesus Cristo, na forma constante das Sagradas Escrituras do Velho e do Novo Testamento. Em reconhecendo este fundamento, confessam as federadas sua fé no Senhor da universal, una, santa e apostólica Igreja. A Federação Sinodal confessa sau fé pelos credos da Igreja antiga e pela Confissão de Augsburgo (Confessio Augustana) como credo reformatório, considerando-se vinculada pela fé à Igreja Mãe(...), bem como às demais igrejas existentes no mundo, que a esta última se acham unidas, pelo mesmo fundamento de fé. O Catecismo Menor de Lutero está em uso nas entidades federadas e é por elas reconhecido como confissão reformatória.”
Esta base confessional da nova Igreja teria uma interpretação do P. Hermann Dohms por ocasião da realização do I Concílio Eclesiástico da Federação Sinodal, em São Leopoldo/RS em 14-16 de maio de 1950:
“1º. - A Federação Sinodal é Igreja de Jesus Cristo no Brasil em todas as conseqüências que daí resultarem para a pregação do Evangelho neste país e a corresponsabilidade para a formação da vida política, cultural e econômica de seu povo.
2º. – Esta Igreja é confessionalmente determinada pela Confissão de Augsburgo e Pequeno Catecismo de Luther, pertence à família das igrejas moldadas pela reforma de Martin Luther, e quando adotará em lugar de ‘Federação Sinodal’ a denominação de Igreja, o que esperamos para breve, exprimi-lo-á nesta mesma denominação.
3º. – Como Igreja assim determinada confessionalmente a Federação Sinodal se encontra na comunhão das igrejas representadas no Conselho Ecumênico as quais admitem o Evangelho de Jesus Cristo, que transmite a Sagrada Escritura, como única regra diretriz de sua obra evangélica e de sua doutrina.
4º. – A Federação Sinodal cultiva a comunhão de fé com a Igreja Mãe, a Igreja Evangélica na Alemanha, que pela sua organização básica evidencia a comunhão da cristandade evangélica na Alemanha e se enquadra na ordem da Ecúmena.”
A partir disso ela pleiteou a filiação e foi acolhida como Igreja-membro no Conselho Mundial de Igrejas (CMI) já em 1950 e na Federação Luterana Mundial (FLM) em 1952.
No II Concílio Eclesiástico no ano de 1954 a Federação Sinodal foi cognominada de “Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.” Em 1962 no IV Concílio Eclesiástico a expressão Federação Sinodal é suprimida, permanecendo apenas Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
Igrejas que já tiveram suas histórias publicadas aqui:
Igreja Católica Apostólica Ortodoxa
Igreja Copta Ortodoxa
Igreja Apostólica Armênia
Igreja Siriaca Ortodoxa
Igreja Anglicana
Igreja Evangélica Luterana do Brasil





Um comentário:
Sou escritora, gostei do assunto. Como adquirir os nomes das pessoas que contribuiram com a Igreja luterana no início. Sou de sobrenome Berbert e ficaria contente em saber que tinha familias alemãs com este nome no primeiro culto 1824.Obrigada.Assuntos que podem mendar por e-mail para mim. Sou grata
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