O conhecimento e a vivência da vontade de Deus
São Lucas 10.25-37
Nos tempos atuais, onde a diversidade de expressão da fé e a busca pelo conhecimento se tornam cada vez mais intensas, nos deparamos com a palavra do Evangelho a nos mostrar prática e teoria, expressão da fé e conhecimento, unidas.
Jesus encontra-se a caminho de Jerusalém, vindo da região de Samaria. Durante este percurso ele se encontra com um conhecedor da Lei que, de maneira direta e prática, deseja saber o que é necessário para herdar a vida eterna. Como a resposta Jesus tira das palavras do conhecedor da Lei, este o questiona acerca de um item específico de sua resposta, a saber, “o próximo”.
Olhando para nossa realidade hoje em comparação com o que lemos no Evangelho Segundo São Lucas, o que podemos aprender com os questionamentos desse conhecedor da Lei? O que Jesus quer mostrar ao revelar o conhecimento da Lei e ao proferir a parábola do bom samaritano?
Como ponto de partida para responder a estas questões, vamos nos deter na primeira pergunta do conhecedor da Lei a Jesus e assim perceber que é preciso ter o conhecimento da vontade de Deus
Um conhecedor da Lei, fariseu, seguidor da Lei de Moisés e de todos os usos e costumes da religião judaica, se encontra com Jesus e lhe faz uma pergunta de forma prática e direta: “o que é necessário para herdar a vida eterna?”. Por saber quem é a pessoa que lhe fez essa pergunta, Jesus responde com duas perguntas: “o que está escrito na Lei de Moisés? Como você a interpreta?”. Recorrendo aos escritos de Deuteronômio 6.5 somado a Levítico 19.18 o conhecedor da Lei responde a Jesus: “Portanto, amem o SENHOR, nosso Deus, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças.” (Dt 6.5) e “Não se vingue, nem guarde ódio de alguém do seu povo, mas ame os outros como você ama a você mesmo. Eu sou o SENHOR.” (Lv 19.18). Como o próprio conhecedor da Lei deu a reposta, Jesus, concordando, apenas complementou: “Faça isso e você viverá.”.
Temos em nossos dias a rica oportunidade de adquirir conhecimento de forma fácil. Os avanços na produção, gerenciamento e divulgação de informação são grandes e intensos. Podemos pesquisar e buscar conhecimento em qualquer área sem encontrar grandes dificuldades. Inclusive no que diz respeito a conhecimento bíblico. Temos diversas traduções da Bíblia para nossa língua, diversas literaturas, conteúdos eletrônicos, enfim, uma variedade cada vez maior de possibilidades de se obter conhecimento.
Porém, faz-se necessário um uso correto desse conhecimento, aliado a vivência diária do conhecimento da vontade de Deus. O conhecedor da Lei tinha todo o conhecimento possível em sua época. Como fariseu, tinha conhecimento da Lei de Moisés (por isso a citou tão bem e uniu textos diferentes dando sua interpretação), também tinha conhecimento das tradições e costumes dos antepassados, cria na ressurreição e na existência de seres celestiais (como anjos, arcanjos, etc.). Esse conhecimento, no entanto, não o impediu de interpelar Jesus acerca da vida eterna, seja para colocar Jesus à prova, seja por curiosidade deste fariseu. Todo o conhecimento não o fazia enxergar a necessidade da vivência desse conhecimento.
Nós podemos adquirir todo o conhecimento que suportarmos, que desejarmos, porém, conhecimento sem fruto de vida nada mais é que informação vazia. Por isso todo conhecimento só é válido quando este se aplica de alguma forma nas nossas vidas. Devemos buscar conhecer mais de Deus, devemos buscar saber sua santa vontade, devemos trilhar o caminho da busca pelo conhecimento e entendimento da Palavra de Deus. Mas este caminho passa por questionamentos de vida e de fé.
Tomado, quem sabe, por uma vontade de provar Jesus ao máximo ou de obter respostas aos seus questionamentos mais íntimos, aquele fariseu faz mais uma pergunta: “quem é o meu próximo?”.
A busca pelo conhecimento chega a questionamentos que muitas vezes só encontram resposta na vivência. Por isso, além de conhecimento é preciso vivência da vontade de Deus
Aquele fariseu fez a Jesus uma pergunta um tanto quanto complicada para o contexto da época. Segundo a tradição judaica, o conceito de “próximo” restringia-se ao povo de Israel. Possivelmente por encontrar Jesus vindo da região de Samaria a caminho de Jerusalém, este fariseu quis por à prova o conhecimento de Jesus.
“Quem é o meu próximo?”. A pergunta, que pode soar tanto como provocativa como meramente investigativa, recebe como resposta uma parábola, que nos mostra não só quem é o nosso próximo, mas principalmente, onde o encontrar.
Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Descia não é bem uma figura de linguagem aqui, é literal. Jerusalém está a 762 metros acima do nível domar e Jericó encontra-se a 244 metros abaixo do nível do mar. A distância entre elas é de apenas 28 quilômetros. Portanto uma descida de 1000 metros em apenas 28 quilômetros de distância. Um caminho difícil pelas condições do terreno, mas também pelas condições adversas que se encontravam ali. A estrada entre Jerusalém e Jericó era deserta, o que, aliado as dificuldades do terreno, era o local ideal para atuação de assaltantes.
Na parábola contada por Jesus encontramos quatro personagens principais. Primeiro o viajante. Possivelmente um judeu descendo para Jericó. Segundo o Sacerdote. Representante direto do Clero, ou seja, da religião dominante instituída. O terceiro um levita, membro da estrutura religiosa vigente, porém, leigo, com atividades específicas. Por fim, um samaritano, povo rechaçado pelos judeus, tidos como pagãos.
É dando o exemplo de conduta deste samaritano que Jesus nos mostra como o conhecimento de nada vale se não for vivido. Passam por aquele judeu enfermo à beira da estrada um sacerdote e um levita, judeus como ele, e nada fazem. O único que se compadece dele é um samaritano que ia de viagem pela mesma estrada. Todo o conhecimento do sacerdote e do levita de nada serviram para que estes pudessem demonstrar o amor ao próximo. Nada. Todo o conhecimento adquirido por eles ficou cravado como pedra ao passar por aquele enfermo. Da porta para dentro da sinagoga, do templo, da vida daqueles judeus, tudo era pedra, palavras vazias sem reflexo na vida.
Devemos nos preocupar com o conhecimento que adquirimos. Será que esse conhecimento nos torna prisioneiro de nossas instituições religiosas? De padrões de comportamento? De ideologias políticas? Será que o conhecimento que adquirimos nos deixa cada vez mais fechado em nós mesmos? Se isto estiver acontecendo devemos abrir nossos corações, almas e disposição para o conhecimento da vontade de Deus. Não adiantava nada aquele sacerdote e aquele levita saberem que era preciso amar o próximo como a eles mesmos. Eles não fizeram nada.
E nós? O que temos feito enquanto Igreja? Será que temos agido como o sacerdote e o levita? O será que somos como o samaritano: tidos por pagão, rejeitado por muitos, desconsiderados perante a sociedade mas vivendo a vontade de Deus?
Concluindo, nos dias de hoje, temos a rica oportunidade de expandir nosso conhecimento acerca dos temas bíblicos e das doutrinas contidas na Bíblia. Todo o conhecimento que for possível adquirirmos devemos aliar a vivência deste conhecimento. De nada adiantará para nós ter todo o conhecimento se este não for colocado em prática. Da mesma forma, a vivência da fé deve se converter em mais conhecimento para o crescimento do Reino de Deus.
Quero concluir deixando as palavras de São Paulo em sua primeira carta a Timóteo, capítulo primeiro verso 19:
“Conserve a sua fé e mantenha a sua consciência limpa. Algumas pessoas não têm escutado a sua própria consciência, e isso tem causado a destruição da sua fé.”.
Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo







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