Misericórdia quero, não sacrifícios
São Mateus 9.9-13, 18-26
Vivemos dias em que a fé é encarada como uma forma de se obter vantagens pessoais e materiais. Vemos pessoas fazerem uso da Palavra de Deus para conseguir seus objetivos pessoais.
No texto que lemos encontramos Jesus em três situações que nos mostram como ele quer que vivamos.
Vamos conhecer um pouco destes momentos e aprender o que Deus espera de nós.
Num primeiro momento, vamos aprender que Deus quer que tenhamos misericórdia com os que oprimem.
Mateus era um cobrador de impostos. Um cobrador de impostos era conhecido popularmente naquela época como publicanos. Os judeus odiavam os publicanos, tinham aversão a eles, por conta do contato que os publicanos tinham com pessoas pagãs, pelo fato de manusearem moedas com a insígnia do Imperador e por não respeitarem a lei, inclusive a do sábado. Publicanos eram pessoas que não eram sequer consideradas juridicamente. Não podiam nem ser testemunhas em um processo no Sinédrio.
Este era Mateus. Um homem desconsiderado por todos os judeus. É a este homem que Jesus chama e ele se levanta e segue. Ele segue sem hesitar. Um ponto que chama atenção em Mateus é que ele precisou largar tudo, absolutamente tudo, para seguir Jesus, inclusive sua profissão. André e Pedro eram pescadores e não o deixaram de ser quando foram chamados por Jesus. Diversas vezes os Evangelhos nos mostram Pedro e André pescando, mesmo depois de chamados por Jesus. Mateus não. Mateus precisou largar sua profissão, não podia ser cobrador de impostos e seguidor de Jesus, porque ser cobrador de impostos implicava em servir e cultuar ao Imperador.
Depois de chamado por Jesus, Mateus oferece uma refeição aos seus amigos para apresentar Jesus a eles. Logo os fariseus trataram de criticar Jesus, pois este comia com publicanos. A resposta de Jesus é enfática: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores [ao arrependimento]. Jesus veio para os que estão perdidos. Ele veio para exercer a misericórdia com aqueles que estão distantes da vontade de Deus. E ele demonstra misericórdia com um representante do Imperador, aquele que oprimia o povo judeu. Portanto Jesus exerce sua misericórdia com aquele que oprime a Jesus e aos seus irmãos judeus. Lembrem-nos que Jesus também pagou impostos!
Mas além de exercer misericórdia com os que o oprimem, Jesus põe em prática o que acabava de dizer e assim exerce sua misericórdia com os excluídos.
O Evangelho coloca, logo após o relato do chamado de Mateus, dois episódios de cura. Enquanto ia atender ao chamado do chefe da sinagoga, Jesus foi tocado na borda de sua veste por uma mulher que estava enferma há doze anos. Doze anos sofrendo com uma hemorragia que, segundo o relato paralelo de São Lucas, o Dr. São Lucas, não havia quem conseguisse curar. Por conta de sua doença, esta mulher não tinha direito algum. Não podia nem ter contato com outros judeus, pois estes ficariam impuros se tivessem quaisquer tipos de contato com ela, até mesmo falar. Esta mulher, enferma, física e espiritualmente, reúne suas forças, suas esperanças, e desafia aquele povo que rodeava Jesus e consegue chegar próximo de Jesus e, segundo a Tradução de João Ferreira d’Almeida, toca a orla de sua veste. Nova A Tradução na Linguagem de Hoje vai dizer que é a borda da capa de Jesus. O fato é que ela tocou um dos fios de lã chamados tsitsit. O tsitsit era formado por quatro fios de lã que eram amarados por todo judeu fiel em suas vestes, cada fio representava cada letra do nome de Deus em hebraico. É neste fio de lã que ela toca. Toca com fé. É de um fio deste que Jesus sente sair dele poder. Diz o texto que aquela mulher fora imediatamente curada. Sua fé, diz Jesus, a salvara. Sua fé naquele homem que ela ouvira falar que fizera milagres, a fé de que ele era a única esperança para sua cura! Ela foi salva, porque em sua infinita graça e amor, Deus derrama misericórdia sem fim sobre as nossas vidas, e derramou sobre a vida daquela mulher.
Jesus exerce sua misericórdia com os que o oprimem, com os excluídos ele também exerce sua misericórdia com os desesperado.
A dor da morte é grande. Quanto mais da morte de um filho. Embora São Mateus não nos dê o seu nome, nem chefe do quê ele era, São Lucas e São Marcos o fazem. Seu nome é Jairo e ele é chefe da sinagoga. Isso por si só explica o fato de tocadores de flautas e grande multidão ter afluído para sua casa no quando da morte da menina. Queriam tirar algum proveito daquela situação, afinal Jairo era homem importante, administrava uma sinagoga. Acontece que Jesus põe aquele povo para fora, afirmando que a menina dorme e não está morta. Daí vemos os mesmos pranteadores sair das lágrimas para o riso em questão de segundos. Jesus entra na casa, possivelmente acompanhado dos pais e mais alguns discípulos, e toma a menina pela mão e a chama de volta para a vida. Aquela menina que estivera morta agora vive! A misericórdia de Deus se faz presente na vida daqueles pais que tem sua filha de volta.
Um ponto interessante neste relato, que é o primeiro relato de ressurreição em Mateus, é o fato de ele ser intercalado com a cura da mulher com fluxo de sangue. Em um único dia Jesus cura uma mulher e devolve a vida a uma menina. Em único dia, Jesus age na vida de duas mulheres, uma adulta e outra criança. Num único dia, Jesus cura e restaura.
Outro ponto interessante é que Jairo pertence a sinagoga, mais que isso, ele é o chefe dela, e mesmo sendo ele um líder religioso, não pode fazer nada para salvar sua filha, ele depende de Deus.Concluindo. O que estes três momentos, em um único dia tem a nos mostrar? Que precisamos aprender o que significa Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores [ao arrependimento]. Para isto, o próprio Jesus nos ensina como ser misericordiosos. Primeiro com aqueles que mais desprezamos, como Mateus para o povo judeu, que era desprezado por ser publicano. Segundo para com aqueles que estão excluídos, como aquela mulher com hemorragia que fora curada. Terceiro, com aqueles que nem imaginamos, como um líder de nossa Igreja, por exemplo ou aquele irmão que achamos que não necessita da misericórdia nossa ou de Deus, por pensarmos ser ele santo demais. Todos precisamos dos ensinos, do amor e da misericórdia de Deus nas nossas vidas. Sejamos pois misericordiosos com os que nos cercam, e anunciemos a misericórdia de Deus para todos, independente quem seja ou o que faça. Deus não exige de nós sacrifícios e penitências, mas nos ordena que sejamos testemunhas de seu amor e misericórdia.
O mundo subsiste por causa de três coisas: a lei, o culto do templo e as obras de misericórdia (Rabino Simeão, o Justo, séc. II a.C.). Interpretando para os nossos dias esta frase do século II a.C. de autoria do Rabino Simeão, o Justo, podemos dizer que a lei é a palavra de Deus, o culto do templo, é o nosso cultuar a Deus e as obras de misericórdias são os frutos de uma vida dedica a cumprir o chamado de Deus para sermos sua testemunha. Sejamos misericordiosos e proclamemos a misericórdia divina.
Que Deus nos abençoe
Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo







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