sábado, 22 de março de 2008

Jesus no sepulcro
São Mateus 27.62-66

Devo confessar à Igreja que este é um momento inusitado para mim. Insisto tanto em lembrar do calendário litúrgico em meus sermões para que possamos compreender a riqueza de se viver nos passos de Jesus. O fato é, que hoje, estamos no sábado que antecede a ressurreição de Jesus. Tenho por costume observar este sábado como momento de reflexão e preparação para o domingo, quando, aí sim, festejamos a vitória da vida sobre a morte.

Neste espírito de reflexão é que convido você a pensar comigo, nesta breve meditação, sobre o sentido da morte e o por quê devemos contemplar a cruz e a tumba.

Em nossa tradição cristã resumimos a Páscoa à apenas a Ressurreição de Jesus. Uma prova disto é que não temos em nossos cancioneiros cânticos que falam apenas do sofrimento e da morte de Jesus, os que citam tais fatos sempre o associam à ressurreição. Antes da ressurreição, porém, temos a traição, o julgamento, os açoites, os sofrimentos na cruz, a morte e a tumba. Todos estes eventos devem ser lembrados e valorizados por nós nestes dias que conhecemos por semana santa. Não devemos apenas olhar para a cruz vazia nem para a tumba vazia, mas devemos contemplá-la também com o corpo de Jesus pendurado no madeiro e deitado na sepultura. Por que? Perguntaríamos, por que olhar para Jesus sofrendo e morto? Para dimensionarmos e compreendermos a ressurreição. Se não contemplarmos o corpo de Jesus pendurado no madeiro e deitado na sepultura, deixamos de lado o sofrimento e a dor e passamos a considerar apenas a vitória. Toda vitória tem seu preço. A vitória da vida sobre a morte foi encarar o sofrimento e a dor. Por isso, como cristãos, não podemos deixar de olhar, especialmente no sábado, para a tumba selada e fechada, com os guardas em sua volta.

Hoje pela manhã, como costumo fazer no sábado que precede a ressurreição, imaginei como devem ter se sentido os discípulos. Acuados, perdidos, sem orientação, sem direção. Aquela força e amor constante ao seu lado estavam confinados numa tumba. Uma confusão de sentimentos. Não compreendiam como aquele a quem eles reconheceram ser o Cristo, o Filho do Deus vivo estava agora morto. Com certeza em Pedro doía o fato de tê-lo negado. Com certeza cada discípulo de Jesus devia ter uma dor em seu peito. Com certeza todos eles deviam carregar consigo perguntas como o vimos sofrer e nada fizemos, que discípulos somos nós? Sofrimento, angústia, medo, desamparo, solidão. A ausência de Jesus possivelmente causava nos discípulos estas sensações. Pelo menos foi o que eu senti hoje pela manhã, enquanto pensava o que seria a vida sem Jesus e sem a promessa da salvação.

Neste sábado, quando aguardamos o domingo, vamos refletir sobre como seria a nossa vida sem Jesus e tentar encontrar uma resposta ao fato de não conseguirmos pensar na traição, no julgamento, nos açoites, nos sofrimentos na cruz, na morte e na tumba de Jesus e apenas querermos contemplar a vitória, sem nos lembrarmos da dor e do sofrimento que foi chegar até ela.

Que Deus nos conforte o coração até à alvorada!

Rev. Giovanni Campagnuci Alecrim de Araújo

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